
Massacre

Sempre reclamamos quando nos encontramos no meio da rua e alguns motoristas, de propósito, de maneira inconsequente e perigosa, tiram “finos”, jogam água e ameaçam nos atropelar.
Bem sei que a rua, o meio dela, não é lugar para pedestre. Certo, mas quando o pedestre não tem direito à calçada, tomada pelos carros, o jeito é a rua.
Ficamos espantados quando em ruas movimentadas são feitos “pegas” e alguns pilotos “costuram” no meio do trânsito intenso. Paremos para pensar um pouco. Pensar o por quê disso tudo.
Na minha interpretação, essas pessoas, são pessoas frustradas, insatisfeitas, oprimidas e procuram dessa forma uma fuga. Uma saída para seus recalques.
A própria ideologia do sistema provoca isso tudo. Não estou aqui defendendo nenhum tipo de doutrina. Em qualquer sistema em que se viva vai existir sempre um tipo ou outro de propaganda. Estamos acostumados a uma propaganda massacrante de um mundo consumista.
Começa ao acordarmos pela manhã, permanece durante o dia e não termina quando vamos dormir. Não termina porque sonhamos com o carrão maravilhoso que aquele ídolo de futebol disse ser o único aceitável. Se ele disse ser o único é porque é o bom.
Não termina porque sonhamos com aquele apartamento ou aquela casa que, durante todo o trajeto do ônibus, nos acompanhou pelos anúncios pendurados pelo caminho de ida e volta para o trabalho.
Não termina porque sonhamos com nossos filhos bem alimentados, comendo geléias, bem vestidos, com roupas caras e estudando em colégios particulares, começando no primeiro grau, e com aprovação garantida para a Universidade.
Não termina porque sonhamos com o televisor a cores impossível de comprar.
Entretanto, a realidade é dura. Estamos constantemente vivendo esses dois mundos, o da realidade e o do sonho. O sonho é maravilhoso, a realidade não. A realidade nos faz viajar em trens superlotados.
A realidade nos faz morar em casas com o mínimo de conforto. Muitas vezes sem conforto algum, sem a mínima condição de higiene. A realidade nos faz ver nossos filhos magros, subalimentados ou com fome, em escolas públicas deficientes, sujeitas ainda, por incrível que pareça, a assaltos. Nesses assaltos, nem os funcionários nem as crianças carentes são respeitados.
A realidade nos faz ver nossas mulheres, próximas à hora do parto, serem recusadas em hospitais, maltratadas por profissionais que, dizem, estudaram muitos anos para fazer justamente o contrário.
Essa é a realidade.
Ora, se nós aturamos isso tudo e vivemos em um sistema que faz a apologia do homem bem-sucedido, do proprietário de carrões, de apartamentões etc. É justo, muito justo aturarmos aquele indivíduo que com bastante dificuldade comprou seu carrinho e ao dirigi-lo sente-se realizado.
Mesmo fazendo um monte de bobagem, ele não tem consciência disso. Temos também de aturar aquele torcedor fanático, mesmo sem dinheiro, ele dá um jeito para ver seu time jogar. Esse torcedor pode até falecer quando seu time sofre uma derrota e chorar de alegria, enlouquecido com uma vitória.
Esses homens enlouquecidos, no exato momento em que estão dirigindo um automóvel, vibrando com um gol, apesar de não terem consciência disso, nesse exato momento eles são vitoriosos. Eles transferem para esses poucos instantes toda a ação, toda a alegria de pessoas que acham que venceram.
Eles? Ah! Eles são vencedores, são homens realizados, bem -sucedidos, tão propalados pelo sistema...
Everaldo Lima d'Alverga é Fotojornalista, autor do Livro "Sem Compromisso".